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"Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina." (Nietzsche)

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Não Sei Quantas Almas Tenho
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
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Segunda-feira, Maio 24, 2010


Descondicionamento

Para acrescentar ao texto de paradigmas lógicos vou deixar aqui um dos conselhos baseados em magia do caos.

11. Descondicionamento, Como eu mostrei antes, é relativamente fácil fazer a troca entre convicções mágicas e dogmáticas. Porém é bom saber que nem toda convicção é tão fácil de ser descartada. Alguns níveis de nossa atitudes/convicções são notavelmente resistentes a mudanças conscientes. Realmente, algumas estruturas são capazes de 'resistir' as mudanças permanecendo camufladas ou ' invisíveis' à consciência consciente, e devem ser arrastadas e chutadas para fora, na luz dolorosa da auto-revelação.

Descondicionamento é um processo ininterrupto - até mesmo em descartar limitações (no Tantra, isto é conhecido como o maravilhoso Klesha), Freqüentemente, estruturas de convicções são ' colocadas' uma dentro da outra, e pode ter as suas raizes em uma experiência formativa poderosa.

Timothy Leary chama isto de processo de ' Impressão da Susceptibilidade' onde a impressão forma uma resposta na base para experimentar, e estabelecer os parâmetros. Os oito circuitos de consciência de Leary e a Metaprogramação pode ser empregada como uma ajuda ao descondicionamento.

Esteja atento que o Processo de Descondicionamento não é nenhuma experiência intelectual. É relativamente fácil aceitar algo intelectualmente bastando um pouco de experiência ou convicção. Leva porem mais poder entrar em ação, em uma nova posição, e arriscar em um motim emocional pode trazer bons resultados. Por exemplo, um mago masculino jovem conhecido meu examinou as suas próprias convicções sobre sua sexualidade , e decidiu que se enfocaria na sua própria repulsa/medo do homoerotismo. Ele achou que se pudesse aceitar ' intelectualmente' as atrações reprimidas dele por outros machos, e assim seu pensamento se liberaria. Ele foi então em vários encontros homossexuais, mas que não lhe deu nenhum prazer físico e somente alimentou a sua ' convicção' anterior de que isso estava errado.

Descondicionamento raramente é simples. Freqüentemente as pessoas que tiveram uma experiência de ' Iluminação' tiveram todas as suas estruturas repressivas derrubadas. Eu disse Derrubadas, e não substituídas, mas o ideal e Substituir pela sua livre e verdadeira vontade, a todo tempo, sempre que quiser. Um dos efeitos da intensa Gnosis é quebrar capas de estrutura de convicção, mas geralmente achamos que ao menos que este trabalho seja acabado, a sensação de convicção-estruturas quebradas é transitória.

O Eu, auto-regulador é o que devemos ser, não em um processo de formação, ou em um eu formado, mais adaptável às experiências. Uma das defesas mais sutis é a 'suspeita furtiva' (que pode rapidamente se tornar uma obsessão) é que você é 'melhor' que todo o resto do mundo. Em alguns círculos, isto é conhecido como ' Magusitis', e não é desconhecido aqueles que se declararam Magos Mestres, Rainhas das Bruxas, avatares de Deusas, ou os Mestres Espirituais. Se você se pega se referindo ao resto do mundo como ' gado ' , ou ' rebanho ' humano, etc, então é hora de dar outra olhada para onde você esta indo. Eu, prefiro os benefícios da empatia e a habilidade de fazer amigos do que as limitações de ser um ser reclusivo, que sonha com os escravos de serviço.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 3:52 PM

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Paradigmas Lógicos

A idéia principal desse texto já estava em minha mente há muito tempo, mas amadureceu quando eu assisti a esse vídeo do Terence Mackena.



Em sua introdução ele explica o por que a cultura pode ser considerada nosso sistema operacional, e dentro deste sistema é impossível que tenhamos uma percepção real de qualquer coisa que esteja fora do mesmo.

O que ele chamou de sistema operacional, e o que vou chamar de paradigma lógico, é mais do que o conhecimento adquirido ou as regras que nos foram impostas culturalmente. É a nossa própria lógica que processa as informações. Esse sistema é criado a partir da síntese entre o nosso entendimento e o conhecimento imposto pelo externo.

As situações que vivemos nos levarão a criar a nossa lógica geral sobre tudo que nos cerca e conforme nos apegamos a essa lógica ela se tornará suficientemente forte para que não aceitemos nada que não possa ser encaixado dentro desse sistema. Em uma discussão inflamada não percebemos o quão claramente estamos defendendo um paradigma que na maioria das vezes nos foi imposto sutilmente pela cultura da qual fazemos parte.

Na prática isso é perceptível pela falta de comunicação real entre pessoas com filosofia de vida completamente diversa. Ateus e Religiosos são um bom exemplo. Ainda que se crie uma discussão lógica e aparentemente produtiva não há troca real de informação, há apenas o confronto entre dois paradigmas divergentes.


O que abrange não só a filosofia de vida, mas também o processo lógico que você utiliza para defender essa filosofia. Não há possibilidade de um entendimento verdadeiro de outra filosofia ou ponto de vista sem que você transforme a informação para que ela se encaixe dentro do seu sistema.

A construção de nossa lógica

Para entender como construímos esse sistema operacional vamos voltar bem no começo.

Quando éramos bebês não tínhamos nenhum sistema operacional, mas ainda sim conseguíamos nos comunicar através do choro. Está com fome: chore, sujou as fraldas: chore. O choro é a primeira forma de linguagem e aprendemos o funcionamento dela na prática.

Mesmo depois de aprender algumas palavras continuamos usando o choro para conseguir o que queremos, não sabemos o por que ele funciona, mas sabemos que funciona. Com o tempo entendemos o mecanismo de funcionamento do choro e como se fosse mágica ele se torna algo constrangedor.


Mas não é mágica, os nossos pais nos condicionam a reprimir esse choro e logo ele se torna socialmente inaceitável. Sem a força das lágrimas começamos a fazer um uso mais abrangente da linguagem verbal. No começo o discurso é apenas prático (“eu quero”), mas rapidamente aprendemos a torná-lo argumentativo (“se você me dar esse presente de natal não precisa me dar outro no aniversário”).

Ainda que o discurso comece a ficar mais elaborado ele se foca nas questões práticas, você usa o discurso para efetivamente moldar o seu meio externo (em geral conseguindo coisas com seus pais ou coleguinhas).

A linguagem



Como visto na cena acima de "Waking Life" a linguagem começa a se deslocar do objeto e finalmente temos a capacidade de abstração, podemos pensar ou falar sem necessariamente estar agindo sobre o meio. Aqui marca-se a formação do seu paradigma lógico, você começa a ter uma idéia sobre moral, ética e filosofia de vida.

É também aqui que começaremos a perceber a diferença do nosso processamento lógico com o das outras pessoas. A visão de moral ou ética que guardamos em nossa bagagem vem em geral dos nossos pais ou dos professores, absorvemos essa lógica inicial deles e podemos fazer simulações mentais sobre o que faríamos ou não em determinadas situações.


Ainda não compreendemos a lógica da linguagem, mas já entendemos sua utilidade como meio de se comunicar e de simular o mundo.

Religião

É nessa época que em geral começamos a entender (superficialmente) as religiões, afinal deus é abstrato, não fazíamos a mínima idéia do por que precisávamos rezar ou ir para a igreja, era um comportamento automático.

Dentro da religião é que o nosso sistema operacional ganha a maior parte de seus upgrades e firewalls. Teremos uma idéia de moral, ética e espiritualidade que em geral nos acompanhará a vida inteira.

O nosso paradigma lógico começa a ficar cada vez mais visível nessa etapa, começamos a simular mais situações, começamos a trabalhar melhor no nosso discurso deixando-o mais complexo, fortaleceremos a nossa defesa contra os discursos contrários e de certa forma imaginamos ter criado algum nível de individualidade por causa disso.

O problema é que o firewall religioso tem uma "lógica" extremamente auto-defensiva e por isso não dará conta de entender , por exemplo, contradições na bíblia, ou mesmo a suma importância da traição Judas para o cristianismo.


Eu presenciei um exemplo interessante dessa questão quando eu morava no Parque Estadual do Rio Doce. A Tainá, uma moça que trabalhou por um tempo comigo lá, era uma religiosa de fim de semana como tantas outras. Certo dia me perguntou se eu acreditava em deus, eu disse que não, ela me lançou aquele olhar incrédulo e disse “nossa, eu realmente ouvia falar que existia pessoas assim, mas não acreditava”.

Ou seja, no paradigma lógico dela, ateus ou agnósticos não existiam, isso simplesmente não tinha espaço no sistema operacional dela.

A filosofia de vida

Vivemos em um admirável mundo novo e felizmente grande parte das pessoas consegue superar o paradigma religioso e começa a montar sua própria filosofia de vida. Esse é um processo lento e doloroso, afinal você passa a duvidar não só de suas próprias crenças, mas do próprio funcionamento de sua mente.

Normalmente essa “filosofia” de vida não tem a ver com filosofia de verdade, mas é possível explicá-la usando as várias escolas filosóficas. O Duanne resume minha filosofia de vida como “Hedonismo Durdeano” por exemplo, não que minha filosofia de vida se resuma à Tyler Durden e Epícuro, mas certamente o meu discurso dá essa impressão para ele.

Visto que a pessoa quer finalmente montar seu próprio sistema operacional ela vai ter que aprender a programar. Se observarmos de perto a linguagem de diferentes paradigmas lógicos percebemos que são tão diferentes como são as linguagens de programação.


O fato de falarmos a mesma lígua (o português) dá a falsa impressão que falamos na mesma linguagem, isso isso por que aprendemos a lingua antes de aprender a lógica. Nessa etapa que começamos a entender o nosso próprio sistema lógico, entendemos as singularidades dele e começamos a atualizar o sistema baseando na filosofia que mais nos agrada.

A configuração do sistema

A configuração do sistema é bem utilitarista, você pega o que funciona e aperfeiçoa, o que não funciona joga fora. Em geral esse processo não terá um fim. Uma vez que você começa a melhorar seus sistema operacional você não para de absorver novo conhecimento e aperfeiçoar seu discurso, a não ser que, por algum motivo, você dê um downgrade no sistema (eu vi isso acontecer a pouco tempo, um cara trocou sua filosofia de vida por um sistema operacional religioso, mas isso será aprofundado em outro texto).

Em geral você não tem que ficar mexendo no sistema o tempo todo, você cria novos algoritmos no instante que são apresentados para você. Por exemplo, Eu não acredito em extra-terrestres hoje, mas acreditei por muito tempo. Foi quando eu estava nessa etapa de construção do meu sistema que comecei a questionar toda essa questão ufológica, vi documentários, li artigos e livros e no final não achei nenhuma possibilidade concreta de sermos visitados por extraterrestres, portanto tirei a ufologia do meu sistema.


Outra possibilidade de mudança drástica em seu paradigma lógico é com o insight. Digamos que você tem uma questão que fica pairando na mente por muito tempo e vai procurar resolver essa dúvida buscando conhecimento externamente, seja conversando com pessoas ou lendo. Quando a dúvida se dissipa é o insight, o ponto final da questão. Em termos práticos é nesse momento que é feita a desinstalação ou instalação de um programa no seu sistema.


O nosso mundinho fechado

Tem um exemplo memorável de como funciona esse insight em “Uma Mente Brilhante”, certamente você se lembra do filme sobre o matemático esquizofrênico que passa metade da vida acreditando em uma conspiração. Pois bem, todos já tinham falado que ele tinha um problema, mas para ele aquilo era real. A questão ficou em sua mente por muito tempo até que ele teve o insight: “Ela não cresce”. Ele finalmente entendeu que seu amigo de quarto e a sobrinha dele não existiam quando percebeu que a menina não crescia.

Apesar do exemplo ser de um caso de esquizofrenia ele se encaixa perfeitamente para nossa questão sobre paradigmas lógicos, pois o sistema que criamos para interagir com o mundo é como uma esquizofrenia simulada. Efetivamente separamos uma pequena parte do mundo real e vivemos nele, como Tainá que não acreditava na existência de ateus, pois nunca teve contato com um antes.


Esse tipo brando de esquizofrenia pode nos seguir a vida inteira, não há uma cura real para o imaginário visto que não é possível provar a própria realidade.

Formatando, ou melhor, desfragmentando ...

Voltando ao vídeo inicial veremos uma idéia revolucionária. Mackena defende a formatação desse sistema operacional com o uso de drogas. Segundo ele o uso dos chás alucinógenos como daime e oasca poderiam criar um tipo de estado puro de consciência que limparia aos poucos a parte intrusiva da cultura para que possamos finalmente criar nosso próprio paradigma.

No meu próximo texto vou entrar em maiores detalhes sobre a minha experiência com o chá, mas desde já não recomendo o seu uso ritual. Aconselho chegar a um estado alterado de consciência com a meditação oriental, que também tem essa propriedade e, embora necessite de muito mais disciplina, também deixa espaço para uma maior liberdade (visto que o uso dos chás citados normalmente se faz dentro de uma instituição religiosa, que tentará preencher os novos espaços criados na mente com seu próprio paradigma).


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:06 PM

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Terça-feira, Dezembro 22, 2009


É ...

Acho que isso aqui vai morrer mesmo, tenho escrito muito pouco normalmente, e sei que final e começo de ano eu não escrevo praticamente nada. Mas não fiquem chateados, vocês podem achar coisas interessantes aqui na Capitu onde tenho uma coluna (que atualizo esporadicamente).

hasta


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:16 PM

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Quarta-feira, Setembro 30, 2009


A ciência é nossa Matrix

Para perceber o mal que a ciência faz a nosso espírito devemos primeiramente perceber as características da ciência. Pergunto as pessoas a minha volta para que serve a ciência e obtenho uma resposta interessante “para que o ser humano tenha melhores meios de sobrevivência”.
Pode ser uma busca pelo conhecimento da natureza e do universo, para ser uma busca por uma compreensão de nossa existência, mas principalmente para melhorar nossa ”qualidade que vida”. Venderam a ciência muito bem para nós e hoje somos escravos de toda a tecnologia que foi criada para suprir nossas necessidades.

A ciência nos faz viver mais e melhor, nos dá conforto e segurança, nos diverte, distrai e acalma. A tecnologia é a forma física da ilusão. Na medida em que a ciência nos dá respostas e cria meios para que tenhamos uma vida mais segura nos apegamos a ela. O nosso apego ao ego se torna um apego à tudo aquilo que pode nos proteger ou proporcionar qualquer forma de conforto.

Tendo todas as necessidade plenamente saciadas pela ciência não precisaremos buscar nada além, não precisaremos mergulhar em nosso interior para obter o conhecimento, tudo vem de fora, especialmente formatado para ser digerido sem esforço.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 3:01 PM

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Não há nada antes - Não há nada depois

Nas divertidas discussões sobre o início do universo sempre tem um “espertinho” questionando o que existia antes do Big Bang. Não existia “antes” pois não existe tempo dentro de um horizonte de eventos na singularidade de uma densidade infinita. O tempo passou a existir no momento da explosão.
Em outra discussão questionam o que há no futuro, e novamente temos em vista a singularidade, seja na tecnologia ou na contração do universo. O que não é mais que um reflexo da própria vida humana, afinal, saímos da inexistência e caminhamos para inexistência.

O único momento que temos é exatamente o presente, o nosso passado é tão ilusório quanto nossa projeção do futuro. Não existirá um amanhã, nunca existiu um ontem, só existe o hoje.
Sendo de onde vem essa mania humana de se preparar para o futuro? Pensar no amanhã? Sofrer por antecipação? A nossa vida só acontece no agora, para não perder esse momento fantasiamos o futuro que nunca existirá.

”O propósito de ponderar sobre a morte e a impermanência é inverter a tendência perniciosa da mente humana de observar tudo como sendo mais estável do que realmente é.” B. Alan Wallace


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:47 PM

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Quarta-feira, Agosto 12, 2009


Coisas da vida

Saudações galera, estou meio sumido pois a vida me consome, mas não estou inerte, aqui tem os 4 textos que publiquei na Revista Capitu, e abaixo um post gigante sobre o que tenho feito nos ultimos 4 meses, mas leiam só os textos da Capitu, o post grande é só para registrar os acontecimentos. Boa leitura!

10 anos de Ilusão
A Importância do Confronto
Existência e Finitude
Por que os sábios do Oriente não criaram a ciência moderna?


posted by TRUNKAEL H MAIRS 11:38 AM

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O segundo grande post

Não sei exatamente quando perdi minha força de vontade, mas só percebi quando não mais conseguia acordar antes de meio dia. Ano passado foi um ano de algum crescimento empresarial, mas nenhum crescimento espiritual ou intelectual. Minha vida se resumia em acordar tarde e trabalhar, e eu efetivamente não queria nada além disso.
A filosofia não ajuda muito quando a força de vontade está escassa, na verdade tudo que se poderia fazer era pensar em quanto a vida poderia ser insuportável. Em algumas semanas eu conseguia ter picos motivacionais, se parecia com um transtorno bipolar, o problema é que eu não tinha consciência disso.

O grande aprendizado de verdade foi entender como a angustia é deslocada para algum fator externo, como se tudo na vida fosse ser resolvida junto com a satisfação de um desejo. Era como se eu simplesmente esperasse tudo acontecer, as coisas viriam, sempre vem. Perdi um ano esperando, mas ainda não era o suficiente.
As coisas pioraram quando descobri um jogo chamado Lineage, para quem está de fora isso parecia de pouca importância, mas para aquele que não conseguia mais se divertir com nada esse foi o vício mais destruidor da minha vida. Comecei a passar muitas horas jogando e todos os fins de semana eram dedicados ao jogo.

O problema do vício em jogos é que você tem total noção de que aquele tempo gasto ali você perde para sempre, é algo que nunca será recuperado, e efetivamente você não terá ganhado absolutamente nada com isso. Mas era agradável jogar, era uma parte boa da vida, na verdade uma “segunda vida” mais interessante que a original.
Quando você cultiva uma vida virtual compensadora não há muitos motivos para dar atenção a sua vida real incompreensivelmente chata. O problema dos MMORPG é justamente esse, mesmo que não seja especificamente o Second Life qualquer um deles se tornará sua segunda vida, e eu já sabia isso jogando RPG nas salas de bate-papo UOL 10 anos atrás.

O fato é que Durante o horário trabalho não conseguia mais me concentrar, ficava o dia inteiro no fórum do servidor discutindo bugs, dando sugestões etc. Como se não bastasse ainda comecei a jogar um desse joguinhos de browser, o Ikariam, assim eu dividia (e perdia) mais o meu tempo e perdi 80% da minha produtividade.
Nem eu conseguia suportar meu mal humor, chegava já tarde, não falava nada com ninguém, colocava um fone de ouvido e “trabalhava”, minha melhor hora era as 19h quando finalmente começava a jogar e ficava às vezes até 5 da manhã. A situação começava a se tornar insuportável, nesse estado eu não conseguiria nenhuma força para sair do fundo do poço.

O pior é que o trabalho que eu gostava tanto se tornava algo maçante, eu não conseguia terminar nada, tinha deixado o capricho de lado para fazer o pior que eu poderia. Claro que eu conseguia valer minha presença, enrolava mais fazia, não fazia bem, mas fazia. Obviamente eu me sentia mal por isso, nas boas semanas eu ficava pensando o quanto produzi pouco na semana anterior e tentava dar conta, mas a semana boa acabava rápido.
Algo que ainda conseguia manter apesar de tudo era um hábito social saudável, saia pelo menos 3 vezes por semana, na época mais brutal do Lineage isso chegou a diminuir a zero, mas disso eu consegui me recuperar rapidamente. Éramos freqüentadores de carteirinha de um boteco aqui do bairro, não havia nada de muito compensador, mas eu sabia que tinha que gastar minha energia em alguma coisa.

Esse ano as coisas melhoraram pois uma amiga minha montou uma república ao lado da minha, assim minha vida social deu uma melhorada, pois eu comecei a freqüentá-la quase todos os dias. A maioria das pessoas que também freqüentavam a republica eram estudantes do curso de psicologia, eu como pseudo-filósofo não deixava passar oportunidades para discutir qualquer coisa por pura diversão.
Obtive mais que diversão, eu precisava me preparar melhor e resolvi voltar a ler, recomecei a ler Mil Platos, principalmente para ter argumentos contra a psicanálise, no final as discussões mais bacanas eram sobre psicanálise, eu era contra e quase todos eram a favor. Deleuze e Guattari me ajudavam na minha cruzada anti-Freudiana.

O que salvava minha vida eram essas conversas, todo o resto era artificial, a única coisa que me restava era uma consciência filosófica de evolução intelectual. O interessante era que eu não me importava com minha atual inércia, na verdade o que eu realmente aprendi nisso tudo foi exatamente como a situação nos engole sem a gente perceber.
Certo dia aconteceu algo deveras interessante, estava eu na rede dessa república, completamente anti-social, sem querer nenhuma interação apenas trocando uma idéia com o amigo mais próximo. Nesse dia tinha uma moça que eu não conhecia naquela casa, imediatamente minha atenção se focou nela. Ela parecia tão leve e falava com tanta suavidade que possivelmente fosse uma invenção de minha mente.

Fiquei encantado com o jeito dela, mas obviamente não me atrevi a lhe dirigir a palavra, nem mesmo a encará-la. Pra minha surpresa foi ela que veio entrar na nossa conversa sobre “sentimentos inconceituáveis”, pois eu tentava explicar o sentimento que tomou conta de mim ao ver essa moça. Ou seja, o próprio objeto da discussão veio se discutir. O que me lembro era que a conversa não durou muito, mas vez ou outra ela virava sua atenção a nós.
Meu interesse se aumentava e assim que consegui seu e-mail tentei qualquer contato que me fizesse sentir mais próximo dela “O mais interessante é que talvez não existisse uma conversa sobre sentimentos inconceituáveis, se você não tivesse despertado em mim um desses sentimentos. Conhecer pessoas como você me dá um novo sopro de vida. Saio da inércia para voltar à eterna busca.”

Ela respondeu o e-mail praticamente para dizer que não responderia e do mesmo que jeito que ela apareceu em minha vida sumiu completamente. Mas eu continuava inquieto, alguma coisa se movia, eu precisava voltar a realidade e num movimento quase inconsciente eu comprei o livro “Desafios da Terapia”. Eu já tinha lido os 3 romances de Irvin Yalom e tinha gostado muito, mas eles não fariam nenhuma diferença perto do que esse livro fez.
Nas várias conversas sobre psicologia um amigo indicava esse livro, apesar de ter sempre me interessado por psicologia foi a primeira vez que tive um denso contato com a abordagem existencial. A filosofia existencial eu conhecia bem, mas realmente não tinha idéia de como aplicá-la efetivamente na minha vida, algo que logo na introdução desse livro aprendo: “retire os obstáculos que a evolução virá naturalmente”.

Não posso resumir o livro nessa frase, mas posso dizer que foi ela a força motriz para que eu saísse do ciclo vicioso que me encontrava. Era hora de finalmente voltar à vida e mesmo relutante eu deveria tirar meu maior obstáculo: Lineage. “Galera vou parar de jogar pelo menos por um tempo pois minha vida me quer de volta e gosto muito de minha vida para não obedecê-la. Até mais”
Parece uma decisão muito fácil, era simplesmente parar de jogar e pronto. Mas eu não conseguiria nunca explicar o quão o vício pode causar dor se não for saciado. Eu tinha uma vida ali, tinha feito bons amigos e ótimos inimigos, tinha me tornado uma das peças chaves de todas as guerras, eu era conhecido e reconhecido. Não é simples abandonar uma vida assim, era um suicídio virtual de alguém que parecia estar no auge da vida.

Então depois de ter me tornado um importante personagem do servidor eu simplesmente sai, agora finalmente eu teria tempo para fazer o que há tempos eu queria: voltar para o kung fu. Apesar de ainda não ter parado com os outros joguinhos (Ikariam, MyBrute e Katsuro) o primeiro obstáculo tinha sido retirado, agora finalmente o horário da noite estava livre, e na mesma segunda feira eu já voltava ao Tao Tien Ti.
Nesse primeiro dia não conseguiria treinar por absoluta falta de preparo físico. Para conseguir pelo menos treinar eu teria que retirar outro obstáculo: o cigarro. Se eu achava que parar com Lineage seria difícil nem imaginava o quão seria complicado parar de fumar. Já tinha tentado parar outras vezes mas não achava motivos suficientes para isso, agora eu tinha um motivo especial, comecei a fumar muito menos mas não conseguia me desvincular.

Sempre falo pras pessoas que o cigarro é a pior das drogas pois é a mais acessível. Ali pode ter um alívio imediato para espera, angustia ou stress, mas esse mal hábito guarda muito mais que uma possibilidade de câncer. O hábito de fumar começa a pautar sua vida, e quando você não tem um cigarro numa madrugada fria e insone que você percebe o domínio que aquilo exerce sobre você.
Eu não precisava parar completamente, eu queria era desvincular do hábito. No começo eu conseguia ficar o dia inteiro sem fumar, mas chegava em casa e era a primeira coisa que eu fazia, como um tipo de compensação pelo desafio. É fácil perceber a dependência física da nicotina, quando eu via meu sócio sair para fumar meu corpo arrepiava. Tudo que você pensa quando para de fumar é o quão seria bom dar um trago em um cigarro nos momentos de tensão ou espera.

Minha luta com o cigarro durou cerca de 3 meses, eu comecei fumando apenas um cigarro por dia, mas logo aumentava e no fim de semana já estaria fumando um maço durante alguma festa. Certo dia simplesmente parei de comprar e me aquietei, depois disso dei um trago ou outro com algum amigo, mas o hábito se foi completamente.
Depois de desvincular do hábito de fumar foi até fácil deletar todos os outros jogos que eu tinha, daí pra frente eu teria que efetivamente preencher meu tempo dentro da empresa com trabalho, única e exclusivamente. A melhora foi brusca, a motivação aumentou instantaneamente, até o porteiro do meu prédio percebeu a mudança.

Nisso o kung fu teve papel essencial, não só por que eu queria voltar a minha melhor forma, mas por que ele se tornou minha válvula de escape. No começo eu chegava no começo da aula tão estressado que ficava de cara fechada e gastava toda força que eu tinha, isso me deixava exausto e finalmente eu conseguiria dormir antes da meia noite.
As coisas começaram a se acertar e agora eu teria que consertar tudo aquilo que estraguei durante o tempo em que estive morto. Já que conseguia novamente dormir cedo voltei a acordar cedo, o que foi essencial para a melhora visível do meu humor. Também melhorei minha alimentação pois já sabia que os nutrientes tem um importante papel no humor e bem estar.

É engraçado que coisas que todo mundo sempre soube de repente se tornam mais óbvias quando são praticadas. Todo mundo sabe que fazer exercício físico é essencial não só para o corpo, mas principalmente para a mente. A boa alimentação é tão óbvia que a gente esquece que ela funciona para balancear toda transmissão de neurotransmissores como noradrenalina e serotonina que são diretamente ligados ao bem estar.
Embora eu ainda não tenha uma dieta especifica de alimentação faço meus testes todos os dias, mudando minha alimentação e observando a mudança no meu humor. O importante é não deixar a força de vontade se esvair e transformar isso num hábito real.

Do ciclo vicioso em que me encontrava finalmente criei meu ciclo virtuoso, daí pra frente a melhora na minha vida foi tão perceptível que as pessoas começaram a me parabenizar por isso. Os últimos vícios que eu tinha foram completamente abandonados, seja os outros joguinhos ou até mesmo a coca cola. Com todo o tempo que sobrou comecei a comprar muitos livros e voltei a ler o máximo que consigo.
De essencial para melhorar a vida é exercício e alimentação, tendo os neurotransmissores balanceados foi menos doloroso mudar completamente meus hábitos, dessa vez além do estudo de psicologia e filosofia comecei a estudar o Taoismo.

O Kung Fu acabou se tornando mais que um simples exercício físico. Observando a filosofia do Tao percebi que posso evoluir muito mais se eu conseguir utilizar o tempo da arte marcial para a meditação e contemplação. Deixei de lado minha arrogância para ser discípulo dedicado, assim tenho (obviamente) aprendido muito mais do que eu pensei.
As práticas do Tao apreendidas dentro do Kung Fu se tornam também ferramentas eficazes para os problemas cotidianos. Atualmente tento aprender a controlar as fincadas de raiva que acontecem inesperadamente após a fala dos budas que me rodeiam. Mas nada que eu não consiga superar.

Observando toda essa mudança sob um teoria mágica, como a Hermética ou Caótica, fica claro que o movimento de energia que eu fiz criou um novo fluxo de energia completamente favorável a mim e a todos que me rodeiam. Agora é só manter a mente forte e permanecer no ciclo virtuoso.
Apesar da mudança polar ser algo natural é possível mudar a polarização de maneira a ficar sempre dentro do fluxo positivo de energia, para isso eu criei uma rotina de mudar minha rotina sempre que a polarização tende para o lado negativo. Junto com isso tudo eu procuro trazer todos que estão ao meu redor para o mesmo fluxo de energia positiva, assim todos os ambientes se tornam fontes seguras de energia e bem estar.

O universo conspirando a meu favor ainda me deu alguns presentinhos bastante interessantes, coisas externas que acontecem independente de minha atuação mas que melhoram demais minha vida. A partir de agora tenho um novo começo, tudo que tenho que fazer é continuar com essa onda boa e não me deixar abalar pelas pequenas falhas que ainda ocorrem.

Hasta!


posted by TRUNKAEL H MAIRS 11:20 AM

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Sexta-feira, Julho 03, 2009


Das coisas que nos rodeiam

Não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas.
Schoppenhauer


Falar sobre as formas subjetivas de como nossa vaidade molda nosso discurso não é algo simples, ainda menos simples é entender essa relação a partir da percepção de outra pessoa. Contra um comportamento defensivo que não se baseia em lógica, mas sim em sentimento, não há nenhum argumento que possa elucidar qualquer tipo de questão existencial. É necessário mais que uma admiração, mas uma confiança na sabedoria alheia para nos permitirmos entender certos vícios em nosso comportamento.

Um estudo superficial do budismo me fez criar um policiamento quanto a atuação de meu narcisismo em meus discursos e quanto mais eu policio o meu discurso, naturalmente policio o discurso das pessoas que me rodeiam. A percepção da arrogância e prepotência alheia nada mais é que o reflexo do modo como eu agia desde sempre com todos.
Para fugir de imposições forçadas devo começar a traçar argumentos usando a pura lógica, e baseado nessa idéia imaginei como seria a raiz lógica de um problema vigente: o desrespeito.
A primeira premissa que eu defendo é que é impossível uma pessoa atingir diretamente o seu self, assim como é impossível uma pessoa sobrepor uma crença sua sem seu consentimento. Existe uma área inatingível em nossa consciência, essa parte não chega nenhum desrespeito, ofensa ou mágoa a não ser que permitamos.
O sentimento ruim que temos perante uma cortada atinge o ego, e o ego define se aquilo se torna ou não uma falta de respeito, de acordo com o nível de prepotência que o ego tem sobre o ofensor.

Ainda que o ofensor queira te magoar deliberadamente, você sempre terá a escolha de aceitar ou não a ofensa. Claro que essa “escolha” acontece muito rapidamente no nível do inconsciente, apenas uma mente muito bem condicionada poderia se desviar diretamente dessa questão e ignorar a ação que o ego move para transformar qualquer ataque a si em um crime.
Portanto, antes de exigirmos respeito dos outros, devemos lembrar do que Schoppenhauer disse “Não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas.” Portanto cuidado com as interpretações.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 9:54 AM

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Quinta-feira, Junho 04, 2009


De um extremo ao outro para chegar ao caminho do meio

Ok, mas quem disse então que ter boa relações com as pessoas é algo essencial? Afinal posso ser um eremita e meditar sozinho pelo resto da vida.

O Duanne propôs essa questão depois de ler o post anterior e, apesar de eu discordar, ela me pareceu muito familiar, pois era justamente o tipo de argumento que eu sustentaria há um ano. Para contra argumentá-lo eu poderia usar simplesmente o filme “O Buda” e lembrar que meditar não é o suficiente se você não trás as “pedras preciosas”. Apesar do budista ser muito dedicado a meditação o mestre sempre lhe falava sobre as “pedras preciosas” que ele não tinha. Ele se referia as relações interpessoais que deveriam ser lapidadas antes de focar exclusivamente um caminho espiritual. Você deve aprender mais sobre você mesmo com o outro, antes de mergulhar em si. Se até o budismo dá tanta importância as relações interpessoais então com certeza prestarei atenção nela.

A outra parte do argumento poderia se referir psicologia interpessoal, que a pouco tempo comecei a me aprofundar. Sabia mais ou menos do que era, mas não tinha uma idéia de como seria um tratamento com essa abordagem. Irvin Yalom faz um bom resumo no começo de seu livro “Desafios da Terapia” dizendo que a maior parte dos problemas das pessoas são interpessoais e essa abordagem ajuda o paciente a lidar melhor com as pessoas, a ter relacionamentos mais produtivos.
A empatia seria o primeiro passo essencial para construção de um bom relacionamento com qualquer pessoa. Para quem acha muito subjetivo esse negócio de empatia tem um exercício simples que pode dar uma forma mais concreta a essa virtude. Em uma conversa que se torna discussão você pode tomar a iniciativa de se colocar no lugar da pessoa, e demonstrar a ela aquilo que você entendeu do que ela disse. Ela vai confirmar ou concertar alguma coisa da interpretação, daí você realmente terá entendido o ponto de vista. No seu contra-argumento explique qual parte você não concorda e peça para que a pessoa diga o que entendeu. Assim a discussão não se torna uma briga inútil e a conversa e o relacionamento prosperam.

Perceba que apenas o exercício da empatia já abranda a prepotência e arrogância comentadas no post anterior. Quando você efetivamente escuta a pessoa e tenta entende-la você tem uma conexão tão boa com ela que não há espaço pra apatia ou qualquer um desses defeitos/escudos.
Para pessoas que tem ego demasiadamente forte será um exercício muito difícil de ser aplicado, pois eu sei muito bem que é um saco ter que ouvir uma pessoa bater na tecla de algo completamente irracional (eu sou assim, não tenho nenhuma paciência com que foge da lógica), mas não é impossível. Primeiro lembre-se que realmente existem pessoas que não se apóiam na lógica, seja num relacionamento, seja numa discussão. Muitas pessoas (na sua maioria, mulheres) são controladas pela emoção, e para elas um fato concreto não quer dizer absolutamente nada.

Mas ai que entra a parte incomoda. Pois é onde seu EGO tem que ceder, pois no final das contas você NÃO PRECISA convencer ninguém de nada. Isso faz parte de seu egocentrismo. Então se uma pessoa quer esquecer a lógica e usar só a emoção seja empático, se coloque no lugar dela e explique pra ela o que você entendeu disso. Há coisas que é melhor não discutir mesmo.
Se você tem na cabeça que quer deixar o egocentrismo, prepotência, arrogância e apatia de lado esse seria o primeiro passo: escute os outros e não se imponha. Se isso começar a dar certo, as outras virtudes sociais virão naturalmente. O mais importante é não sair do caminho e não cair na apatia.

Para mais informações sugiro livros de psicologia interpessoal. Tenho lido os livros do Irvin Yalom, que usa a abordagem interpessoal e a existencial, o que está efetivamente mudando minha forma de relacionar com as pessoas. Espero que eu consiga ainda esse ano acabar com esses meus defeitos e seguir um caminho boas virtudes sócias.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:13 AM

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Domingo, Maio 24, 2009


Sobre como se defender da influência do meio

"cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro." (Clarisse Lispector)


Uma época especial em minha vida foi o segundo grau. Foi meu primeiro contato com a psicologia e a filosofia, também meu primeiro contato com a internet. Durante meu segundo grau tive um crescimento intelectual extremamente interessante, foi a época em que decidi parar de assistir televisão, questionar as regras e efetivamente sair da alienação proposta pelo meio.
Talvez a energia de ativação primária foi assistir “Clube da Luta” durante uma das aulas de psicologia. A visão de que a sociedade capitalista minava minhas vontades reais, meu poder criativo e, efetivamente, meu próprio brilho individual se proliferou rapidamente em minha mente. Foi o começo da ruptura.
Mesmo sendo um entendimento rudimentar eu sabia que não deveria aceitar tudo que a sociedade me impunha sem antes questionar. Rapidamente o questionar se tornou uma resistência e luta pela formação de minha própria identidade, independente do que o meio poderia me oferecer de imediato.

O efeito colateral de tomar as rédeas de minha própria vida veio quase que imediato, a arrogância e prepotência surgiram como mecanismo de defesa para tudo que fosse externo a mim. Rapidamente comecei a rotular as pessoas de alienados, e num texto que em que eu destilava todo meu veneno nietzscheano (embora eu ainda nem conhecesse Nietzsche) eu chamei as pessoas comuns de “Pobres Mortais”.
Ficou claro que eu achava que estava acima do resto do mundo, isso se refletia na minha antipatia por qualquer assunto mundano, eu queria fugir daquela adolescência imbecil que me cercava. Apesar da minha arrogância ser visivelmente reprovada pelos outros eu continuava, principalmente quando descobri que não estava só, encontrei adeptos que me deram força para continuar nesse caminho de resistência.

O momento de lucidez veio durante uma viagem. Tendo conseguido contaminar os dez estudantes com minhas teorias percebi ainda mais a força de minhas palavras e meu poder de liderança. Mas também foi nessa viagem, especificamente no final dela, que percebi que tinha alguma coisa errada nisso tudo. Quando eu vi todos os outros chamando o resto do mundo de “Pobres Mortais” percebi o perigo de achar que o único caminho de resistência era pisando na cabeça dos demais.
Depois disso tomei um caminho mais silencioso e entrei numa extensa busca intelectual, para finalmente me dar conta que os defeitos que eu tinha criado para me defender (arrogância e prepotência) não só me tornaria desagradável com todos, mas criaria um bloqueio intelectual que me impediria de efetivamente evoluir.

Quando resolvi cortar os defeitos, efetivamente o prédio desabou.

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Não posso colocar minha história como regra absoluta, mas acredito bastante nas minhas próprias experiências de vida quando se trata da validação de uma teoria. Tempos depois pude observar que outras pessoas que conseguiram se desvencilhar das amarras sociais também desenvolveram esses defeitos mencionados, ou pelo menos um tipo de apatia social.
A primeira forma de defesa contra o meio requer um escudo apropriado e a apatia social, assim como a arrogância funcionam muito bem para criar e fazer a manutenção de nosso campo defensivo contra o sistema opressivo a nossa volta. Depois da consciência desse problema percebi que existem pelo menos três caminhos que as pessoas trilharam para se desvincular de tais defeitos.

O primeiro, e possivelmente o mais usado, é simplesmente desistir de fazer resistência e voltar para os braços acolhedores do sistema. Mas parece que essa não seja uma resolução real do problema, pois até então não encontrei ninguém que permanecesse feliz depois de ter voltado a ser alienado pelo meio.
O segundo, que é muito comum nos círculos intelectuais, é que essas pessoas ou não percebem, ou não querem considerar a existência desses defeitos (escudos) sociais. Elas simplesmente mantém sua prepotência, apatia ou arrogância e convivem com elas como se não existissem.
O terceiro e mais doloroso caminho é lutar para se desfazer desses defeitos sociais e manter a resistência usando outros escudos. Essa é uma fase que pode nunca ser concretizada pois é uma luta diária, você deve se monitorar o tempo todo para entender como suas ações são vista pelas pessoas que convivem com você e como você pode melhorar suas relações.

Observando superficialmente parece com a primeira opção, mas nesse caso o trabalho consiste não só na destruição desses defeitos, mas também na construção de virtudes que possam criar uma ponte suspensa até as pessoas que você gosta. Claro que o exercício de uma virtude como a empatia, por exemplo, é algo demorado e demanda muita disciplina. Desenvolver essas virtudes necessárias para manter uma vida social compensadora, apesar de não estar mais sob o manto opressor do sistema, será um trabalho para toda a vida.


Continua..


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:55 AM

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