Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Stats
Quarta-feira, Agosto 12, 2009
Coisas da vida
Saudações galera, estou meio sumido pois a vida me consome, mas não estou inerte, aqui tem os 4 textos que publiquei na Revista Capitu, e abaixo um post gigante sobre o que tenho feito nos ultimos 4 meses, mas leiam só os textos da Capitu, o post grande é só para registrar os acontecimentos. Boa leitura!
Não sei exatamente quando perdi minha força de vontade, mas só percebi quando não mais conseguia acordar antes de meio dia. Ano passado foi um ano de algum crescimento empresarial, mas nenhum crescimento espiritual ou intelectual. Minha vida se resumia em acordar tarde e trabalhar, e eu efetivamente não queria nada além disso.
A filosofia não ajuda muito quando a força de vontade está escassa, na verdade tudo que se poderia fazer era pensar em quanto a vida poderia ser insuportável. Em algumas semanas eu conseguia ter picos motivacionais, se parecia com um transtorno bipolar, o problema é que eu não tinha consciência disso.
O grande aprendizado de verdade foi entender como a angustia é deslocada para algum fator externo, como se tudo na vida fosse ser resolvida junto com a satisfação de um desejo. Era como se eu simplesmente esperasse tudo acontecer, as coisas viriam, sempre vem. Perdi um ano esperando, mas ainda não era o suficiente.
As coisas pioraram quando descobri um jogo chamado Lineage, para quem está de fora isso parecia de pouca importância, mas para aquele que não conseguia mais se divertir com nada esse foi o vício mais destruidor da minha vida. Comecei a passar muitas horas jogando e todos os fins de semana eram dedicados ao jogo.
O problema do vício em jogos é que você tem total noção de que aquele tempo gasto ali você perde para sempre, é algo que nunca será recuperado, e efetivamente você não terá ganhado absolutamente nada com isso. Mas era agradável jogar, era uma parte boa da vida, na verdade uma “segunda vida” mais interessante que a original.
Quando você cultiva uma vida virtual compensadora não há muitos motivos para dar atenção a sua vida real incompreensivelmente chata. O problema dos MMORPG é justamente esse, mesmo que não seja especificamente o Second Life qualquer um deles se tornará sua segunda vida, e eu já sabia isso jogando RPG nas salas de bate-papo UOL 10 anos atrás.
O fato é que Durante o horário trabalho não conseguia mais me concentrar, ficava o dia inteiro no fórum do servidor discutindo bugs, dando sugestões etc. Como se não bastasse ainda comecei a jogar um desse joguinhos de browser, o Ikariam, assim eu dividia (e perdia) mais o meu tempo e perdi 80% da minha produtividade.
Nem eu conseguia suportar meu mal humor, chegava já tarde, não falava nada com ninguém, colocava um fone de ouvido e “trabalhava”, minha melhor hora era as 19h quando finalmente começava a jogar e ficava às vezes até 5 da manhã. A situação começava a se tornar insuportável, nesse estado eu não conseguiria nenhuma força para sair do fundo do poço.
O pior é que o trabalho que eu gostava tanto se tornava algo maçante, eu não conseguia terminar nada, tinha deixado o capricho de lado para fazer o pior que eu poderia. Claro que eu conseguia valer minha presença, enrolava mais fazia, não fazia bem, mas fazia. Obviamente eu me sentia mal por isso, nas boas semanas eu ficava pensando o quanto produzi pouco na semana anterior e tentava dar conta, mas a semana boa acabava rápido.
Algo que ainda conseguia manter apesar de tudo era um hábito social saudável, saia pelo menos 3 vezes por semana, na época mais brutal do Lineage isso chegou a diminuir a zero, mas disso eu consegui me recuperar rapidamente. Éramos freqüentadores de carteirinha de um boteco aqui do bairro, não havia nada de muito compensador, mas eu sabia que tinha que gastar minha energia em alguma coisa.
Esse ano as coisas melhoraram pois uma amiga minha montou uma república ao lado da minha, assim minha vida social deu uma melhorada, pois eu comecei a freqüentá-la quase todos os dias. A maioria das pessoas que também freqüentavam a republica eram estudantes do curso de psicologia, eu como pseudo-filósofo não deixava passar oportunidades para discutir qualquer coisa por pura diversão.
Obtive mais que diversão, eu precisava me preparar melhor e resolvi voltar a ler, recomecei a ler Mil Platos, principalmente para ter argumentos contra a psicanálise, no final as discussões mais bacanas eram sobre psicanálise, eu era contra e quase todos eram a favor. Deleuze e Guattari me ajudavam na minha cruzada anti-Freudiana.
O que salvava minha vida eram essas conversas, todo o resto era artificial, a única coisa que me restava era uma consciência filosófica de evolução intelectual. O interessante era que eu não me importava com minha atual inércia, na verdade o que eu realmente aprendi nisso tudo foi exatamente como a situação nos engole sem a gente perceber.
Certo dia aconteceu algo deveras interessante, estava eu na rede dessa república, completamente anti-social, sem querer nenhuma interação apenas trocando uma idéia com o amigo mais próximo. Nesse dia tinha uma moça que eu não conhecia naquela casa, imediatamente minha atenção se focou nela. Ela parecia tão leve e falava com tanta suavidade que possivelmente fosse uma invenção de minha mente.
Fiquei encantado com o jeito dela, mas obviamente não me atrevi a lhe dirigir a palavra, nem mesmo a encará-la. Pra minha surpresa foi ela que veio entrar na nossa conversa sobre “sentimentos inconceituáveis”, pois eu tentava explicar o sentimento que tomou conta de mim ao ver essa moça. Ou seja, o próprio objeto da discussão veio se discutir. O que me lembro era que a conversa não durou muito, mas vez ou outra ela virava sua atenção a nós.
Meu interesse se aumentava e assim que consegui seu e-mail tentei qualquer contato que me fizesse sentir mais próximo dela “O mais interessante é que talvez não existisse uma conversa sobre sentimentos inconceituáveis, se você não tivesse despertado em mim um desses sentimentos. Conhecer pessoas como você me dá um novo sopro de vida. Saio da inércia para voltar à eterna busca.”
Ela respondeu o e-mail praticamente para dizer que não responderia e do mesmo que jeito que ela apareceu em minha vida sumiu completamente. Mas eu continuava inquieto, alguma coisa se movia, eu precisava voltar a realidade e num movimento quase inconsciente eu comprei o livro “Desafios da Terapia”. Eu já tinha lido os 3 romances de Irvin Yalom e tinha gostado muito, mas eles não fariam nenhuma diferença perto do que esse livro fez.
Nas várias conversas sobre psicologia um amigo indicava esse livro, apesar de ter sempre me interessado por psicologia foi a primeira vez que tive um denso contato com a abordagem existencial. A filosofia existencial eu conhecia bem, mas realmente não tinha idéia de como aplicá-la efetivamente na minha vida, algo que logo na introdução desse livro aprendo: “retire os obstáculos que a evolução virá naturalmente”.
Não posso resumir o livro nessa frase, mas posso dizer que foi ela a força motriz para que eu saísse do ciclo vicioso que me encontrava. Era hora de finalmente voltar à vida e mesmo relutante eu deveria tirar meu maior obstáculo: Lineage. “Galera vou parar de jogar pelo menos por um tempo pois minha vida me quer de volta e gosto muito de minha vida para não obedecê-la. Até mais”
Parece uma decisão muito fácil, era simplesmente parar de jogar e pronto. Mas eu não conseguiria nunca explicar o quão o vício pode causar dor se não for saciado. Eu tinha uma vida ali, tinha feito bons amigos e ótimos inimigos, tinha me tornado uma das peças chaves de todas as guerras, eu era conhecido e reconhecido. Não é simples abandonar uma vida assim, era um suicídio virtual de alguém que parecia estar no auge da vida.
Então depois de ter me tornado um importante personagem do servidor eu simplesmente sai, agora finalmente eu teria tempo para fazer o que há tempos eu queria: voltar para o kung fu. Apesar de ainda não ter parado com os outros joguinhos (Ikariam, MyBrute e Katsuro) o primeiro obstáculo tinha sido retirado, agora finalmente o horário da noite estava livre, e na mesma segunda feira eu já voltava ao Tao Tien Ti.
Nesse primeiro dia não conseguiria treinar por absoluta falta de preparo físico. Para conseguir pelo menos treinar eu teria que retirar outro obstáculo: o cigarro. Se eu achava que parar com Lineage seria difícil nem imaginava o quão seria complicado parar de fumar. Já tinha tentado parar outras vezes mas não achava motivos suficientes para isso, agora eu tinha um motivo especial, comecei a fumar muito menos mas não conseguia me desvincular.
Sempre falo pras pessoas que o cigarro é a pior das drogas pois é a mais acessível. Ali pode ter um alívio imediato para espera, angustia ou stress, mas esse mal hábito guarda muito mais que uma possibilidade de câncer. O hábito de fumar começa a pautar sua vida, e quando você não tem um cigarro numa madrugada fria e insone que você percebe o domínio que aquilo exerce sobre você.
Eu não precisava parar completamente, eu queria era desvincular do hábito. No começo eu conseguia ficar o dia inteiro sem fumar, mas chegava em casa e era a primeira coisa que eu fazia, como um tipo de compensação pelo desafio. É fácil perceber a dependência física da nicotina, quando eu via meu sócio sair para fumar meu corpo arrepiava. Tudo que você pensa quando para de fumar é o quão seria bom dar um trago em um cigarro nos momentos de tensão ou espera.
Minha luta com o cigarro durou cerca de 3 meses, eu comecei fumando apenas um cigarro por dia, mas logo aumentava e no fim de semana já estaria fumando um maço durante alguma festa. Certo dia simplesmente parei de comprar e me aquietei, depois disso dei um trago ou outro com algum amigo, mas o hábito se foi completamente.
Depois de desvincular do hábito de fumar foi até fácil deletar todos os outros jogos que eu tinha, daí pra frente eu teria que efetivamente preencher meu tempo dentro da empresa com trabalho, única e exclusivamente. A melhora foi brusca, a motivação aumentou instantaneamente, até o porteiro do meu prédio percebeu a mudança.
Nisso o kung fu teve papel essencial, não só por que eu queria voltar a minha melhor forma, mas por que ele se tornou minha válvula de escape. No começo eu chegava no começo da aula tão estressado que ficava de cara fechada e gastava toda força que eu tinha, isso me deixava exausto e finalmente eu conseguiria dormir antes da meia noite.
As coisas começaram a se acertar e agora eu teria que consertar tudo aquilo que estraguei durante o tempo em que estive morto. Já que conseguia novamente dormir cedo voltei a acordar cedo, o que foi essencial para a melhora visível do meu humor. Também melhorei minha alimentação pois já sabia que os nutrientes tem um importante papel no humor e bem estar.
É engraçado que coisas que todo mundo sempre soube de repente se tornam mais óbvias quando são praticadas. Todo mundo sabe que fazer exercício físico é essencial não só para o corpo, mas principalmente para a mente. A boa alimentação é tão óbvia que a gente esquece que ela funciona para balancear toda transmissão de neurotransmissores como noradrenalina e serotonina que são diretamente ligados ao bem estar.
Embora eu ainda não tenha uma dieta especifica de alimentação faço meus testes todos os dias, mudando minha alimentação e observando a mudança no meu humor. O importante é não deixar a força de vontade se esvair e transformar isso num hábito real.
Do ciclo vicioso em que me encontrava finalmente criei meu ciclo virtuoso, daí pra frente a melhora na minha vida foi tão perceptível que as pessoas começaram a me parabenizar por isso. Os últimos vícios que eu tinha foram completamente abandonados, seja os outros joguinhos ou até mesmo a coca cola. Com todo o tempo que sobrou comecei a comprar muitos livros e voltei a ler o máximo que consigo.
De essencial para melhorar a vida é exercício e alimentação, tendo os neurotransmissores balanceados foi menos doloroso mudar completamente meus hábitos, dessa vez além do estudo de psicologia e filosofia comecei a estudar o Taoismo.
O Kung Fu acabou se tornando mais que um simples exercício físico. Observando a filosofia do Tao percebi que posso evoluir muito mais se eu conseguir utilizar o tempo da arte marcial para a meditação e contemplação. Deixei de lado minha arrogância para ser discípulo dedicado, assim tenho (obviamente) aprendido muito mais do que eu pensei.
As práticas do Tao apreendidas dentro do Kung Fu se tornam também ferramentas eficazes para os problemas cotidianos. Atualmente tento aprender a controlar as fincadas de raiva que acontecem inesperadamente após a fala dos budas que me rodeiam. Mas nada que eu não consiga superar.
Observando toda essa mudança sob um teoria mágica, como a Hermética ou Caótica, fica claro que o movimento de energia que eu fiz criou um novo fluxo de energia completamente favorável a mim e a todos que me rodeiam. Agora é só manter a mente forte e permanecer no ciclo virtuoso.
Apesar da mudança polar ser algo natural é possível mudar a polarização de maneira a ficar sempre dentro do fluxo positivo de energia, para isso eu criei uma rotina de mudar minha rotina sempre que a polarização tende para o lado negativo. Junto com isso tudo eu procuro trazer todos que estão ao meu redor para o mesmo fluxo de energia positiva, assim todos os ambientes se tornam fontes seguras de energia e bem estar.
O universo conspirando a meu favor ainda me deu alguns presentinhos bastante interessantes, coisas externas que acontecem independente de minha atuação mas que melhoram demais minha vida. A partir de agora tenho um novo começo, tudo que tenho que fazer é continuar com essa onda boa e não me deixar abalar pelas pequenas falhas que ainda ocorrem.